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CA SUSTENTÁVEL
REVISTA CRÉDITO AGRÍCOLA
GO PORTUGAL
GO!
Olga Moreira, bióloga de formação e
coordenadora da Estação Zootécnica do
Instituto Nacional de Investigação Agrária
e Veterinária (INIAV) de Santarém, está à
frente do projecto GOEfluentes, que ficou
em primeiro lugar na categoria Inovação em
Parceria: Grupos Operacionais, na 7.ª edição
do Prémio Empreendedorismo e Inovação
Crédito Agrícola
O trabalho distinguido incide nos efluentes de pecuária – aborda-gem
estratégica à valorização agronómica/energética dos fluxos
gerados na actividade agropecuária – enquadra-se no Programa
de Desenvolvimento Rural (PDR 2020) e resultará na redacção de
um Roteiro de Gestão de Efluentes, a concluir até ao final deste ano. “Hoje,
estamos perante um cenário de economia circular”, contextualiza Olga Mo-reira,
justificando a pertinência do tema. Embora, há quatro anos, esta fosse
uma área inexistente na Estação Zootécnica, actualmente, está a ser dinami-zada
“em pleno”, quer no domínio da gestão dos efluentes, quer na procura
e na pesquisa de alimentos circulares. Para valorizar os sistemas de produ-ção
animal, os co-produtos da agro-indústria que eram sub-aproveitados são
utilizados na cadeia alimentar animal, tendo como objectivo a redução da
“competição com os humanos por alimentos”.
No caso dos efluentes de pecuária, o projecto GOEfluentes abrange três
áreas-chave: a caracterização do sector, a mitigação das emissões de gases
de efeito estufa e a valorização dos efluentes. “Nesta valorização, impõem-
-se os princípios da economia circular e do resíduo zero”, nos quais se está
a investir para que, definitivamente, os efluentes sejam percepcionados
como mais-valia inquestionável e inadiável. A valorização dos efluentes
passa pela valorização agronómica e energética e pela biodegradação por
larvas de BSF (mosca soldado-negro), para além da compostagem, que es-tá
a ser feita em parceria com “uma empresa especializada e que queria
testar, em escala, compostagem de estrume de bovinos de leite”. A biólo-ga
faz questão de lembrar que os sistemas de produção animal originam
efluentes cuja valorização é presentemente uma preocupação, sinal de um
novo tempo de evolução do sector. E releva que “um crescente número de
explorações se encontra, desse ponto de vista, a funcionar extremamente
bem”. Num cruzamento entre a alimentação e a sustentabilidade, defen-de
a importância de existir uma produção de carne sustentável em três
dimensões: a económica – “porque tem de ser rentável para quem pro-duz”
–, a da criação de emprego e a ambiental.
A coordenadora do projecto GOEfluentes con-sidera
que da parte do sistema produtivo tem
havido “um esforço muito grande para a sus-tentabilidade
das explorações”, frisando que há
uma preocupação crescente com a alimentação,
o bem-estar animal e a produção eficiente. “Ha-verá
que produzir para ser rentável e ter quali-dade
a dois níveis: na eficiência de produção e
na valorização dos efluentes gerados. E é preci-samente
neste cenário que se coloca o desafio
de converter um problema numa oportunidade:
os efluentes a jusante do sistema de produção,
que resultam dos suínos, bovinos de leite, aves…
Ou seja, a oportunidade está em valorizar um
elemento crítico nesta equação”. Pretexto pa-ra
que Olga Moreira nos fale da importância da
digestão anaeróbia de efluentes, em que, ape-sar
de se realizar há algum tempo, neste caso,
a inovação associa-se à “quantificação de ener-gia
produzida por chorume de ciclo fechado em
função do pavilhão pecuário, onde têm origem
os efluentes: engorda/acabamento, gestação e
creche”. No caso da valorização por biodegra-dação
com mosca soldado-negro, a bióloga ex-plica
que, embora testada noutros países, surge
em Portugal através deste projecto-piloto, com
inovação de processo e de produtos e apresen-ta
já resultados excelentes e mensuráveis. “No
segundo dia de tratamento, os maus cheiros de-saparecem.
As larvas sobrevivem em determina-das
condições de temperatura e de humidade, e
têm uma capacidade de resiliência incrível, pois